OBRA

CANÇÕES

LETRA

Não sonho mais

Não sonho mais

Hoje eu sonhei contigo
Tanta desdita, amor
Nem te digo
Tanto castigo
Que eu tava aflita de te contar
Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha
E se urina toda
E quer sufocar
Meu amor
Vi chegando um trem de candango
Formando um bando
Mas que era um bando de orangotango
Pra te pegar
Vinha nego humilhado
Vinha morto-vivo
Vinha flagelado
De tudo que é lado
Vinha um bom motivo
Pra te esfolar
Quanto mais tu corria
Mais tu ficava
Mais atolava
Mais te sujava
Amor, tu fedia
Empestava o ar
Tu, que foi tão valente
Chorou pra gente
Pediu piedade
E olha que maldade
Me deu vontade
De gargalhar
Ao pé da ribanceira
Acabou-se a liça
E escarrei-te inteira
A tua carniça
E tinha justiça
Nesse escarrar
Te rasgamo a carcaça
Descemo a ripa
Viramo as tripa
Comemo os ovo
Ai, e aquele povo
Pôs-se a cantar
Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha
E se urina toda
E já não tem paz
Pois eu sonhei contigo
E caí da cama
Ai, amor, não briga
Ai, não me castiga
Ai, diz que me ama
E eu não sonho mais

No sueño más

Versión de Silvia Ulrik y Roberto Echepare
 
Hoy soñe contigo
Tanta desdicha, amor
Ni te digo
Tanto castigo
Que tenia pena de contarte
Fue un sueño espantoso
De esos que a veces uno sueña
Y babea la almohada
Y se orina toda
Y quiere sofocar

Mi amor
Vi llegando un tren de candango²
Formando un bando
Pero era un bando de orangutanes
Para agarrarte

Venia el negro humillado
Venia el fantasma
Venia el flagelado
De todos los lados
Habla un buen motivo
Para arañarte

Cuando vos más corrías
Más te quedabas
Más te enredabas
Más te ensuciabas
Amor, tu hedías
Apestabas el aire

Vos, que fuiste tan valiente
Lloraste entonces
Pediste piedad
Y mirá que maldad
Me dieron ganas de
Una carcajada soltar

Al borde del despeñadero
Acabó la lucha
Y escupí entera
Tu carniza
Y hubo justicia
En ese escupir

Te rasgamo' el caparazón
Bajarno Ia ripia
Revolvimo' las tripa'
Comimo' los huevo'
Ay! Y aquel pueblo
Se puso a cantar

Fue un sueño espantoso
De esos que a veces uno suena
Y bebea la almohada
Y se orina toda
Y ya no tiene paz

Pues yo soné contigo
Caí de la cama
Ay!, amor, no pelees
Ay!, no me castigues
Ay!, decí que me amás
Y no sueno más


1979 © Marola Edições Musicais
Todos os direitos reservados. Copyright Internacional Assegurado. Impresso no Brasil


Chico Buarque

República dos assassinos. de Miguel Faria Jr. (1979)

ENCONTRADA NO

ÁLBUM

Vida

Vida

1980

CURIOSIDADES

Nota sobre Não sonho mais
Gilberto de Carvalho, Chico Buarque, Análise Poético-musical

     Letra 
O discurso desta música composta para o filme República dos assassinos, de Miguel Faria, é heterobiográfico, bem ao feitio de Chico. Neste, quem fala é um travesti, dirigindo-se ao seu amor, um policial. Segundo o próprio Chico, "é uma letra violenta pra burro''. Seguindo a linha escatológica em moda na música popular, ela dá continuidade a essa tendência, iniciada na obra de Chico com "Geni" (por sinal, envolvendo, tambérn, um homossexual).
O travesti relata ao policial, atemorizadamente, o seu sonho: o desejo de vingança traz uma multidão de pessoas - todas com um bom motivo para esfolar o policial - numa caravana, num trem, para o acerto de contas. E de nada adiantava ele correr destes mortos. vivos, flagelados e humilhados: quanto mais ele corria, mais piorava a situação, inclusive se atolando. Ao pé da ribanceira, o "happy-sad end" (o movimento pendular dos finais das estórias de Chico aqui é tão rápido que ocupa os dois extremos: a infelicidade de um é a felicidade de todos). Todo aquele povo, vítima do policial, estabelece a vingança definitiva. Antropofagicamente, matam, "viram as tripas" e comem "os ovo" do carrasco (numa alusão a que, devorando os testículos dele, estariam impedindo que fossem gerados seres tão maléficos e indesejáveis quanto ele). A comemoração é geral, e aquele povo "põe-se a cantar" (essa imagem Chico usa muito: vide "Apesar de você" e "Rosa-dos-ventos", cf. Parte Suplementar deste livro).
E, após contar seu sonho ao seu "amante" policial, o homossexual usa da submissão suprema - promete que, se o policial disser que o ama, não sonhará mais.
O sadomasoquismo, pertinente ao tipo homossexual, transparece abertamente nesta música, onde o escarrar, o rasgar a carcaça precedem a imagens bem indicativas da perversão como "viramo as tripa" e "comemo os ovo".
O final da música tem um arranjo "bem bolado" - o som parecido com o de um trem, como a indicar que o trem no qual viajara a caravana vingadora - após a missão cumprida - estivesse de partida.
Esta música teve uma outra gravação, com Elba Ramalho. Grande número de pessoas acharam que a gravação com a cantora é melhor. Acho ambas de igual valor.

Fonte: Gilberto de Carvalho, Chico Buarque, Análise Poético-musical, Editora CODECRI, 1982

Chico Buarque

Chico

Em 58 anos de carreira, compôs centenas de canções, aqui apresentadas por título, data, compostas em parcerias, versões e adaptações, compostas para teatro, cinema e aquelas que só aparecem em discos de outros intérpretes. Suas músicas foram gravadas em cerca de 40 álbuns, organizados por data, projetos, discos solo, gravações ao vivo, coletâneas e discos de outros intérpretes dedicados a ele. A obra completa do artista é uma das maiores riquezas que a cultura brasileira produziu até hoje.

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